07.03.10: Entrevista de Serj Tankian para Libel Music
Por: Sharina Parsottam para Libel.co.nzFotos: Honor Clare
Com um homem do calibre dele, foi um privilégio entrevistar o frontman do System of a Down e atual artista solo Serj Tankian.
O álbum muito esperado Elect the Dead Symphony, executado com a Orquestra Filarmônica de Auckland, com 70 instrumentos, estará disponível na próxima semana como um combo CD/DVD. Felizmente para nós, mesmo com sua agenda ocupada Tankian foi capaz de arrumar um espaço para uma entrevista com a Libel Music no Ponsonby’s Fusion Café.
Na meia hora com Serj, discutimos sobre o Elect the Dead Symphony, sua residência na Nova Zelândia, o próximo álbum, sua conversa com Dalai Lama, cafeterias, o FCC, o que espera por ele nos próximos anos e muito mais.
Libel Music: O que tem acontecido no mundo de Serj Tankian nos últimos meses?
Serj Tankian: Nos últimos meses estive, mais que tudo, focado no meu próximo disco solo, que na verdade terminei de gravar e então vou mixar mês que vem. É, estou muito animado com isso. É selvagem, uma força tremenda e interessante de sons e cores. É eletrônico, orquestral, jazz e rock tudo ao mesmo tempo e um impacto muito muito imenso no som que eu mal posso esperar para tocar para as pessoas pois é algo que nunca tinha escutado antes, muito menos feito.
LM: Como você conseguiu entrar em contato com a Orquestra Filarmônica de Auckland (APO) e como surgiu a idéia?
ST: Alguns anos atrás, recebi um email da minha amiga Boh Runga e ela tinha trabalhado com a APO. Uma pessoa da APO, Jules Clemens, havia perguntado sobre fazer uma colaboração comigo então ela basicamente nos colocou em contato e daí para frente começamos a organizar e planejar e juntar tudo, fazendo as orquestrações até o show. É, então foi realmente ótimo, foi um interesse da parte deles que se estendeu.
LM: Quanto tempo demorou o processo?
ST: Provavelmente mais de um ano, sim.
LM: Você está pensando em fazer turnê com o Elect the Dead Symphony?
ST: Sim, sim, na verdade estarei em turnê com pelo menos parte de Elect the Dead Symphony. Temos cerca de 7-8 shows na Europa marcados até agora com diferentes orquestras, por toda a Europa. Estamos marcando alguns nos EUA agora, é realmente interessante que um show a partir de uma única orquestra está se tornando em diferentes orquestras pelo mundo. É bem empolgante.

LM: É verdade que você quer fazer outro show com a APO na Nova Zelândia?
ST: Sim, estivemos conversando sobre isso, apenas não conseguimos encontrar a data certa para esse ano. Estou escrevendo uma sinfonia instrumental, clássica, jazz. Uma coisa totalmente nova. Sem vocais, é estritamente orquestral. E a APO estava interessada em fazer isso mas o momento não está dando certo por causa da minha louca agenda ocupada para o próximo ano. Então ainda estamos vendo para fazer talvez em 2012.
LM: Então como você aproveita a Nova Zelândia? Você passa férias aqui?
ST: Sim! Eu adoro vir aqui e ficar na minha casa. Consegui residência há uns anos e estou aqui há uns 4 ou 5 anos como residente. Não, 3 anos como residente, na verdade, mas tenho estado aqui por 4 ou 5 anos indo e vindo entre LA e Auckland.
LM: Você se aventurou fora de Auckland?
ST: Oh sim, claro. Tenho dirigido bastante na Ilha Sul. Estive em Nelson, Picton, Christchurch, Dunedin, Queenstown e claro Wanaka. No Norte me concentrei ao redor de Auckland e todo o subúrbio. Subi até a Baía das Ilhas. Ainda não fui realmente muito longe ao sul de Auckland, então será nossa próxima viagem. Eu adoro ir para a Ilha Waiheke, é linda! Me aventuro mais na Nova Zelândia do que na Califórnia e vivo lá por 30 anos, porra!
LM: Você pratica surf ou snowboard aqui?
ST: Não pratico, não. Eu gosto de body boarding e body surfing mas tenho que aprender a surfar.
LM: Uma década atrás, você pensava que poderia um dia trabalhar com uma orquestra? Você sempre esperou ter isso nos planos?
ST: Uma década atrás eu provavelmente nem mesmo pensava nisso. Mas alguns anos atrás, sabe, quanto mais começava a compor para filmes, mais a orquestra se tornava uma realidade. Agora é uma realidade diária.
LM: Existem outras coisas musicalmente que você quer realizar nos próximos 10 anos?
ST: Oh sim, muitas. Existem muitas formas de música com as quais ainda não mexi. Num mundo perfeito, estou pensando depois do próximo disco solo, que é um híbrido de diferentes gêneros. Estou pensando em lançar um disco de jazz ou talvez um disco de jazz ao vivo e então um disco dance. Épico, sabe, você tem que fazer tudo. Estou fazendo um musical nesse momento também, então esse é o primeiro para mim. Quero fazer mais composições para filme. Vou lançar um segundo livro de poesias e tenho planos para um projeto de museu e um romance de não-ficção.
LM: Uau! Então você já começou esses?
ST: Sim. O romance e o projeto do museu até agora são conceitos. Reunindo e desenvolvendo a idéia. O restante é tudo realidade. Está acontecendo.
LM: Qual o conceito do romance? É uma biografia?
ST: Não, vai se referir à interseção entre justiça e espiritualidade. Vai começar com uma citação do Dalai Lama porque encontrei o Dalai Lama há alguns anos e ele me fez duas perguntas, então vai começar com isso.
LM: Quais eram as perguntas?
ST: Uma era uma pergunta realmente difícil e ele tinha apenas 5 minutos então ele riu de mim e disse: “Valeu, cara!”. Bom, ele não disse essas palavras mas me fez soar assim, sabe. A primeira pergunta era mais fácil, eu disse: “O que você acha que é a simetria ou a interseção entre espiritualidade e justiça?” e a segunda pergunta tinha a ver com o fim da civilização. Eu disse: “Bom, na minha opinião, o que conhecemos em termos de civilização já acabou, nossa acelerada taxa de destruição, recursos naturais combinados com nossa taxa acelerada de população faz o modo atual que vivemos, o número de carros que podemos ter, o número de poluição e carbono que podemos emitir no mundo, é impossível. Então o que vem depois?”. E Ele disse: “5 minutos, hein? Value, cara!”. Aquilo foi legal. Ele tinha umas respostas muito simples mas profundas, na verdade. Não vou te contar quais foram. Você vai ter que ler o livro, daqui a dois anos. [risos]
LM: Quais foram as faixas que mais se destacaram no Elect the Dead Symphony?
ST: Eu gosto do jeito que “Blue” ficou, porque eu nunca toquei realmente essa música ao vivo e especialmente com uma orquestra. Adorei como a orquestra louvou os tons sombrios dessa música. “Empty Walls” ficou realmente ótima porque o público estava cantando junto e foi tipo um hino no final. Gostei do modo como “Beethoven’s Cunt” ficou, eu achei muito divertida, especialmente o maestro anunciando-a. É, foi divertido. “Falling Stars” ficou muito boa também, outra música que eu nunca toquei ao vivo.
LM: Você tem um estúdio de gravação na sua casa em Piha?
ST: Não tenho um estúdio mas tenho um piano, tenho um velho órgão Estey e tenho meu computador e um monte de guitarras e pedais e tal, então tenho o suficiente para escrever e com que gravar em termos dos estágios básicos de gravação. Tenho um estúdio profissional completo em LA próximo à minha casa. É lá onde faço a maioria da minha produção.
LM: Você já terminou de escrever “Music Without Borders”?
ST: Já gravei ele todo, não apenas escrevi mas está quase todo terminado. E não tenho certeza se vamos chamá-lo assim. É só um título temporário de trabalho, “Music Without Borders”. Há algumas idéias quanto ao título que estamos testando. Um é “Imperfect Harmonies”, que seria interessante. Eu pesquisei, procurei no Google e havia um artigo sobre Música e Física e tinha a ver com a NASA de alguma forma e eu falei: “Uau! Estou nessa!”.
LM: O que os Flying Cunts of Chaos estão fazendo agora sem você?
ST: Muitos dos caras estão em turnê com diversos artistas, alguns deles. Dan na verdade trabalhou com Rick Rubin em um monte de discos que Rick tem feito, como o do Kid Rock e ao vivo do Metallica e tal. Mario e Troy estão em turnê com diferentes artistas e Erwin está fazendo alguns discos diferentes e algumas produções com diversos artistas.
LM: Você ainda vai voltar a tocar com eles?
ST: Sim, quando fizermos shows ao vivo para o próximo disco solo, eu definitivamente quero eles tocando ao vivo e daí estamos pensando em contratar artistas locais para a parte de cordas e metais para complementar o toque ao vivo da banda, então teremos um pouco das duas coisas no disco.
LM: Se você não fosse músico, que caminho de carreira você teria tomado?ST: Essa é outra questão que acho que Moby perguntou ao Dalai Lama. Ele disse: “Se você não fosse o Dalai Lama, o que você seria?”. Ele disse que faria algo a ver com o meio ambiente. Essa foi outra resposta que foi legal. Se eu não fosse músico, Deus, eu já fiz tantas coisas antes da música que poderia ter sido qualquer coisa. Sabe. Trabalhei com vendas no varejo, no atacado, trabalhei na fabricação, fui dono da minha própria empresa de software antes de fazer música então não sei onde estaria. Pois cada 5 anos de minha vida me levou a um lugar diferente. Então eu não sei. Eu poderia ser você, poderia ser jornalista. Poderia ter sido isso, poderia ter sido advogado, pensei em fazer isso por um tempo na verdade, ser advogado.
Às vezes você tem que passar pelas coisas mais extremas que não são você para perceber quem é você. Você tem que tentar algumas das coisas que você sabe que não têm a ver com você mas que você poderia fazer, para que você perceba qual é sua visão às vezes.
LM: Como você entrou na música?
ST: Comecei tocando um teclado Casio na faculdade. Entrei na música meio tarde. Não sabia que música era minha vocação até que tinha 25-15 anos, então eu ficava só passando o tempo e só gostava mesmo de como ela tirava minha mente dos meus estudos, trabalho ou do que quer que estivesse fazendo.
LM: Com que músicos da Nova Zelândia você possivelmente estaria interessado em trabalhar?
ST: Estou fazendo uma música com Bic Runga para o próximo álbum dela, é uma de minhas músicas que escrevi cerca de 8 anos atrás na verdade. No Watergate Hotel de todos os lugares de Washington DC. Eles tinham um velho piano legal lá. Fiz uma música com Boh Runda em seu disco e tive a chance de fazer uma Jam com o Crowded House ano passado quando estive lá. Eles estavam apenas fazendo jams e escrevendo material no estúdio de Neil Finn em Newton então foi divertido. Eu gosto de dub, não me importaria de fazer algo com Salmonella Dub ou algo do tipo, seria legal. Fiz uma música com blue Kng Brown que é australiano, não neozelandês, mas eles têm um som bem dub. Uma banda muito legal, gosto deles também.
LM: Eles vão vir aqui em breve para o WOMAD.
ST: Oh, eles virão em breve? Ah, legal, quando vai ser? Você sabe?
LM: Março. 12 de março.
ST: Ah legal, não estarei aqui. Mas eles são legais, vão lançar um novo disco em breve também.
LM: Há algum artista para quem você está atualmente produzindo música que você queira divulgar?
ST: Ah! Há um artista que estamos empresariando na verdade pela primeira vez, pois percebemos que a música quanto a lançamento como selo, estávamos perdendo todos os nossos distribuidores, eles estavam afundando. Então sentimos que ajudaríamos do mesmo jeito sem necessariamente planejar lançar seu disco em questão, encontramos um contrato para eles melhor do que podíamos oferecer. Então há uma banda chamada Visa de Los Angeles com quem estamos trabalhando e eles são uma mistura realmente interessante de música européia oriental, rock, punk e um pouco de russa e grega. Sim, influências incríveis. Não quero dizer que é como Gogol Bordello mas acho que os fãs de Gogol Bordello e da banda de Seattle chamada Kultur Shock que Billy Gould lançou, o baixista do Faith no More. Ele tem um selo chamado Koolarrow, eles estão nessa veia da música. É realmente muito interessante.
LM: Há algum outro artista que você esteja curtindo no momento?
ST: Curtindo… hmmm… tem muitos. Me deparo com muita música. Recebo muita música e geralmente eu escuto uma vez e... hora do frisbee! Mas sabe, de vez em quando você encontra algo que em que vai se apegar. É raro. Mas tenho trabalhado em tanta música que sinceramente muitas pessoas me perguntam: “O que você está escutando?”. Presumindo que escuto música. Eu raramente tenho tempo para escutar música porque estou criando música, é como trabalhar numa cafeteria e então ir para casa de fazer café. Às vezes isso meio que não dá certo.
LM: O que você achou do Auckland Town Hall como local do show?
ST: Achei que tinha um ótimo som e uma ótima vibe. Um tipo de sentimento muito clássico e é um lugar lindo. Fico feliz que fizemos lá ao invés de qualquer outro local em Auckland.
LM: Há algo especial que você faz antes de um show?
ST: Há duas coisas que gosto de fazer. Uma é relaxar, uma é rir. Relaxar e rir tendem a acalmar e permitem a você expandir sua garganta e rir permite a você expandir seu espírito e coloca uma vibe positiva em seus olhos quando você sobe no palco. Então eu gosto de rir de piadas. Se estou com os caras do FCC nós simplesmente contamos piadas e rimos, não precisa de muito para isso. Isso te deixa se sentindo bem e há dias em que você simplesmente não está bem, nem todo show quando você está em turnê e tocando todos os dias. Alguns dias você está com um humor de merda ou está doente e sobe no palco e tem que subir lá, esses são os dias que te fazem um profissional. São esses os dias em que você tem que simplesmente dizer: “Tudo bem, vamos fazer isso”, e você simplesmente vai lá e faz.
LM: Onde você acha que tem o melhor café de Auckland?ST: Essa é uma pergunta muito boa! Bom, tenho amigos nesse café chamado Barabra no Viaduct que tem Miller’s Coffee. O Miller’s Coffee é realmente bom em termos de café neozelandês. Columbus tem um café bem decente, mesmo sendo uma grande cadeia. Sim, eu gosto do café deles.
LM: Então… a antiga pergunta, o que está acontecendo com o System of a Down? Ainda em hiatus indefinido?
ST: Nem me diga. Há notícias online mais interessantes do que tenho para dar! [risos] Sim, ainda estamos em hiatus indefinido, nós sempre recebemos ofertas para fazer shows e há sempre interesse na banda, o que é um grande elogio. Eu pessoalmente sou muito grato por isso e se e quando a hora chegar de nos pronunciarmos juntos e fazermos alguma coisa, todos saberão, estará em nosso site. Simples assim. Tudo o mais é boato.
Tradução: Lika Tankian - Fonte: SOADFans
Postado por Lika Tankian


O título "Steal This Album!" é uma referência ao livro "Steal This Book" de Abbie Hoffman.